Reserva Ovariana

QUANTO TEMPO UMA MULHER COM 30 ANOS PODE ESPERAR PARA TER FILHOS?

Uma das maiores revoluções comportamentais ocorridas nas últimas décadas ocorreu devido a um lançamento da indústria farmacêutica. A introdução das pílulas anticoncepcionais, na década de 60, foi responsável por uma transformação sem precedentes na sociedade moderna. A partir desta época pôde a mulher ambicionar mais do que ficar responsável pela casa e cuidar dos filhos. O eficaz controle da natalidade permitiu se dedicar aos estudos e se estabelecer profissionalmente antes mesmo de pensar em formar uma família. Com isto, vários fenômenos demográficos foram verificados, sobretudo nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Dentre estes, tiveram destaque a acentuada diminuição do número de filhos por casal e a postergação da idade em que se engravida pela primeira

vez. O que muitas pessoas não sabem é que esta mudança tem feito com que aumente o risco de homens e mulheres, ao adiar o ato de terem filhos, se deparem com alguma dificuldade para engravidar. Vários fatores contribuem para isto: um maior tempo de exposição à poluição ambiental, ganho de peso com o passar da idade, maus hábitos como o uso de drogas lícitas (álcool e cigarro) ou ilícitas e o uso de cuecas justas e a permanência por horas diariamente sentado (por parte dos homens). Outro fator verificado é que com uma contracepção eficaz se torna possível namorar mais e ter mais parceiros(as), o que acaba por aumentar a

chance de contato com algum microorganismo potencialmente nocivo à fertilidade, como é o caso da bactéria chlamydia trachomatis. A postergação da maternidade também faz com que as mulheres ingressem em uma faixa etária em que algumas doenças, mesmo benignas, podem afetar o potencial reprodutivo. O surgimento da endometriose e dos miomas uterinos são bons exemplos, uma vez que são mais diagnosticados entre os 30 e 40 anos de idade. Embora menos comum, a necessidade de tratamento de algumas doenças malignas, como é o caso do câncer de mama, das leucemias e dos linfomas, pode também comprometer o plano de formar uma família. Dez por cento das mulheres detectadas com câncer de mama têm menos de 40 anos e podem precisar de alguma terapêutica prejudicial à saúde ovariana (quimioterapia, por exemplo). Vários são os fatores que podem prejudicar a capacidade reprodutiva do ser humano. Entretanto, nenhum é tão ameaçador à fertilidade feminina quanto o inevitável transcorrer da idade. A maioria das pessoas desconhece importantes fatos a respeito da fisiologia ovariana e optam por realizar um planejamento de vida muitas

vezes equivocado devido à falta de informações. Alguns dados científicos a respeito do “envelhecimento ovariano” fisiológico:

  • A quantidade de óvulos varia enormemente de pessoa para pessoa. Enquanto algumas nascem com um estoque de 2.5 milhões, outras apresentam pouco mais de 30 mil no momento do nascimento.
  • Aos 30 anos uma mulher com uma “boa reserva ovariana” tem, em média, apenas 10% da quantidade de óvulos que tinha ao nascer. Aos 35 tem apenas 5%.
  • A cada mês são perdidos de forma imperceptível cerca de 1000 óvulos, mesmo não havendo ovulações devido ao uso da pílula. Esta perda também ocorre, por exemplo, com as células do sangue e da pele diariamente. Entretanto, este tipo de célula é reposto de forma contínua ao longo da vida, o que não acontece no caso dos óvulos.
  • A análise de exames de mulheres saudáveis (sem infertilidade, vícios ou doenças) e com ciclos menstruais regulares revelou que, independentemente da idade, 26% tinham o estoque de óvulos menor do que o esperado.

Atualmente é possível, através da chamada “avaliação da reserva ovariana”, obter de especialistas na área de reprodução humana algumas orientações a respeito do estoque estimado de óvulos que cada mulher ainda dispõe. Pode ser identificado se o mesmo está dentro, acima ou abaixo do esperado para a idade. Os casos que geram uma maior preocupação são justamente aqueles em que se verifica uma quantidade reduzida. Cerca de 1% das mulheres entram na menopausa antes dos 40 anos e em 10% dos casos isto ocorre antes de se completar 45 anos. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, o declínio acentuado da fertilidade não se dá na menopausa, ou seja, quando a menstruação cessa por completo e sim aproximadamente 10 anos antes. Portanto, uma mulher que está destinada a parar de menstruar aos 46 anos poderá ter a sua fertilidade encerrada de forma precoce ao redor dos 36 anos de idade, antes mesmo de ter o primeiro ou o segundo filho. A avaliação da reserva ovariana permite um aconselhamento individualizado baseado em informações obtidas após uma entrevista médica, a dosagem de um hormônio específico para este fim e a realização de ecografia dos ovários para contagem dos folículos (pequenas estruturas onde se encontram os óvulos) por profissional habilitado. Trata-se de uma ferramenta que pode colaborar para um melhor planejamento de vida da mulher que trabalha, estuda e ainda deseja ter filhos.