08 de maio de 2011 | N° 16694
CAPA
Mãe solteira por opção
Por inseminação artificial ou pela adoção, mulheres decidem ter um filho mesmo sem ter um par
Roberta Siqueira encontrou o futuro pai de seu filho em um consultório médico. Era jovem, alto e saudável. Ela bem que queria conhecê-lo melhor, mas jamais saberá além do que consta no perfil dos doadores anônimos do banco de sêmen. Não importa: esse para sempre estranho lhe garantiu o sonho de ser mãe. E quando Franco, que nasceu em fevereiro, lhe perguntar sobre o pai, a procuradora do Estado de 37 anos já sabe o que irá responder:
- Mamãe queria muito te ter, mas não encontrou quem pudesse levar esse projeto adiante, daí te teve sozinha.
Um contingente cada vez maior de mulheres subverte a ordem convencional, em que primeiro viria o amor, depois o casamento e, por fim, os filhos. No Pro-Seed, banco de sêmen privado com sede em São Paulo e que atende clínicas de diferentes estados do país, as solteiras já representam 30% da demanda - há cinco anos, o percentual era de 1%. São mulheres beirando os 40 anos, com estabilidade financeira e desejo de ser mãe - independentemente de ter um par ou não. Muitas sequer desejam se casar um dia, e as que pretendem se sentem pressionadas pelo tempo: até conhecer alguém e chegar à hora de discutir a ideia de ter filhos, estariam no limiar da vida fértil.
- Mais do que em maior número, essas mulheres chegam com mais naturalidade ao consultório. Algumas vêm até com a mãe ou a irmã - diz o especialista em reprodução humana assistida Edson Borges Junior.
Claro que ideia de família como pai, mãe e filhos permenece o parâmetro social - Roberta teve de reivindicar o direito de ter sua irmã na sala de parto enquanto uma funcionária repetia que a norma do hospital é que somente o pai teria esta permissão. Mas as mulheres de classe média que optam por ser mães solteiras defendem a legitimidade desse arranjo familiar, como mais um possível entre aqueles formados por separações, recasamentos e uniões homoafetivas.
- As pessoas têm o direito de buscar seu próprio caminho para a felicidade. A estrutura da família tradicional está se modificando e não há por que reproduzir o mesmo modelo nessas novas possibilidades de arranjos familiares - pontua Verônica Chaves, psicóloga do Juizado da Infância e da Juventude.
Trata-se de um passo além da produção independente como um ato de rebeldia para a geração setentista do "É proibido proibir" e prova de autossuficiência das mulheres que vestiram tailleur para disputar o mercado de trabalho nos anos 80. É o que afirma a doutora em Psicologia e coordenadora da Pós-graduação da Universidade de Pernambuco, Maria Cristina Amazonas, que pesquisa as famílias monoparentais:
- Antes, a produção independente era quase uma bandeira. Hoje, é feita de forma mais responsável. Boa parte das mulheres tem estabilidade econômica, sabe da responsabilidade que está assumindo e a mudança que isso vai provocar em sua vida.
Como Maria Cristina atestou em seu estudo, a queixa da sobrecarga é frequente, mas não o arrependimento. Há nove anos, quando deu à luz um menino, fruto de uma inseminação por doador anônimo, uma professora universitária de 51 anos, que prefere não se identificar, sabia que boa parte de seu tempo e seus ganhos seriam do filho sonhado:
- Na questão financeira, tinha uma vida quase de rainha, e agora virei plebeia (risos). É preciso abrir mão de muita coisa, mas me sinto realizada.
A funcionária pública federal Claudia Damian Fernandes, 41 anos, realizou seu projeto de maternidade em março do ano passado, mas por outra via: estava entre as cerca de 9% de mulheres solteiras que aguardam na fila de adoção no Brasil, em iguais condições com os casais, quando teve a chance de se tornar mãe de Caroline, sete. Desde então, passou a equilibrar os gastos e restringiu a vida social para dedicar mais tempo à filha, o que, reconhece, diminui as chances de conhecer um namorado. Mas, quando elogiam sua coragem, ela acha até estranho:
- Foi muito natural. E é maravilhoso ouvir minha filha me chamar de mãe.
Como tantas mulheres separadas, víúvas ou mesmo casadas, as palavras-chaves no dia a dia das mães solteiras são "rede de apoio". Além de babás e creches, contam com a ajuda de avós, tios e dindos da criança - até para servir como figuras masculinas de referência. Até agora, Roberta Siqueira considera-se uma mãe solteira, não sozinha: amigos e familiares disputam a chance de cuidar de Franco, e a mãe do dindo do bebê pleiteou o posto de avó.
O especialista em reprodução assistida Nilo Frantz já ajudou muitas mães solteiras a formar uma família. Mas acredita que os constantes avanços da medicina poderão fazer dessa uma opção menos frequente. Frantz aposta que a escolha da inseminação artificial por um doador anônimo perderá espaço para a possibilidade já existente de congelar óvulos e adiar a maternidade. Assim, defende ele, as mulheres teriam mais tempo até para encontrar alguém com quem dividir a decisão de ter um filho:
- Chega no consultório uma mulher de 35 anos para fazer uma inseminação, mas, quem sabe, aos 45, ela estará apaixonada e poderá ter o filho com o homem da vida dela?
Eduardo Passos, especialista em reprodução assistida e coordenador da Comissão Científica da Associação Latino-americana de Medicina Reprodutiva, acredita que a procura pelo congelamento de óvulos deverá aumentar, mas sem que a inseminação para solteiras deixe de crescer.
- São dois perfis: as solteiras que buscam o congelamento querem uma reserva na perspectiva de vir a ter um parceiro. As que buscam a reprodução assistida estão decididas, inclusive quanto à ideia de não ter um parceiro.
Roberta não tem intenção de um dia se casar, mas já planeja o segundo filho. Está na fila de adoção e, provavelmente, pouco ou nada saberá dos pais biológicos do caçula. Agradecerá mais uma vez a estranhos por sua família.
PATRÍCIA ROCHA
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CAPA
Professora universitária, 51 anos, mãe de um garoto de nove anos
"Quando engravidei, todo mundo soube que havia sido por inseminação de um doador. Minha mãe nunca falou no assunto e até hoje não fala. Uma amiga, pediatra, condenou muito, disse que eu tinha de pensar na criança. Mas estava pensando só na criança quando fiz isso. Há muito dessa cobrança à mãe solteira que engravida de um doador anônimo, de que está sendo egoísta, sem pensar no bem-estar da criança. Mas quem me conhece sabe que sempre quis um filho. Diria que 90% me apoiaram e que uns 10% não falam do tema, além dessa amiga que foi contra. Mas até hoje somos muito amigas, e ela tem que dar o braço a torcer de que deu certo. É instinto natural de uma mulher querer ter filhos, se é egoísmo, não sei, mas é da natureza. E meu filho, do jeito que está indo, será uma contribuição para a sociedade."
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CAPA
Roberta Arabiane Siqueira, procuradora do Estado, 37 anos, deu à luz Franco em fevereiro
"Minha mãe criou minhas duas irmãs e eu praticamente sozinha. Então, nunca me foi pesada a ideia de embarcar na maternidade sozinha: família para mim não é sinônimo de casamento, mas de filhos. Não me imagino casada, nunca tive o sonho de casar e ter um marido. Mas tinha o sonho de ter um bebê, então fiz uma inseminação com doador anônimo. Quando disse para minha família que estava grávida, ninguém perguntou quem era o pai. Sabiam que eu não estava namorando. Foi uma alegria muito grande: para eles, não interessava de onde vinha, interessava que era meu filho. Um dia, quando o Franco me perguntar como ele nasceu, vou dizer a verdade: a mamãe queria muito te ter, mas não encontrou ninguém que pudesse levar esse projeto adiante, daí a mamãe te teve sozinha."
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CAPA
Claudia Damian Fernandes, funcionária pública federal, 41 anos, que adotou Caroline, sete, no ano passado
Sempre quis ser mãe adotiva, sempre achei mais interessante do que ser mãe biológica, até pela questão social, de haver muita criança no mundo, e por eu não sentir a necessidade de que um filho nascesse da minha barriga. O difícil era pensar qual seria o momento ideal. Fui casada duas vezes, mas, na época, não pensava em ter filhos. Eu me achava nova e pensava que filho era para quando já tivesse vivido algumas coisas e construído um patrimônio. Mas nunca pensei que deveria ser necessariamente quando eu estivesse com alguém. Adotei a Caroline em março do ano passado. Hoje meu final de semana passou a ser com a ela, até porque não temos tanto tempo durante a semana. Como mãe solteira, a vida social diminui, mas não se acaba. Restringiu-se, apenas. E não descarto voltar a ter um relacionamento estável, mesmo morar junto - a única questão é que inverti o curso natural da história, tive filhos primeiro. Minha filha pergunta se o meu príncipe terá que ser um cara legal, e respondo que sim - e que deverá gostar de criança.
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CAPA
Técnica em enfermagem, 42 anos, mãe de uma menina de quatro anos
Tive dois namorados, mas nenhum quis assumir o projeto de ter um filho. Aos 38 anos, é uma idade em que aumentam as complicações para a mulher ter um filho. E aí, até conhecer uma pessoa, ter um namoro firme, até pensar em casar e ter filhos, vai tempo... Então, decidi que teria o meu filho sozinha e busquei uma clínica para fazer a inseminação.
Minha filha sabe que não tem pai. Um dia desses, ela me perguntou sobre isso, e eu disse a verdade: que tinha namorado, mas que não deu certo e que daí fui ao médico, e que ele colocou uma sementinha em mim e depois ela nasceu. Se alguém pergunta, ela diz que não tem pai, com a maior naturalidade.
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CAPA
Pai anônimo
"Mãe, quem é meu pai?"
Esta é a pergunta que toda mulher que engravidou por inseminação artificial de um doador anônimo se prepara para responder assim que toma esta decisão. Confrontadas com a necessidade de explicar ao filho sua origem e a empreitada de criá-lo sozinha, algumas desistem já no consultório, como já viu acontecer Mariangela Badalotti, professora de Ginecologia da Faculdade de Medicina da PUCRS e diretora de uma clínica de reprodução assistida:
- Sempre discuto essas questões com as pacientes. Claro que há muitas criança sem pai, só que é um pouco diferente a questão da origem: por mais que tenha sido um encontro casual, uma relação que se esfacelou ou alguém que morreu, há um pai para o qual pode ser reportada alguma referência. Aqui, na sua origem está um doador anônimo, e isto terá um efeito sobre sua história. Muitas mulheres se acham capazes de fazer uma criança feliz nessas condições, outras não. Duas pacientes acabaram desistindo por esse motivo e depois engravidaram em novos relacionamentos.
Muitos filhos adotivos também desconhecem a identidade de seus pais, e isso não necessariamente vai constituir um problema, afirma a doutora em Psicologia e coordenadora da Pós-Graduação da Universidade Católica de Pernambuco, Maria Cristina Amazonas, que pesquisa famílias monoparentais.
- No caso da mãe que recorre a um doador anônimo, importa como fará essa revelação ao filho, que deve ser feita cotidianamente, narrada para criança como sua história, na medida das perguntas que ela traz. Se isso está resolvido na cabeça da mãe, para a criança será uma filiação sadia - destaca Maria Cristina.
Estudos, como a pesquisa de Maria Cristina, atestam não haver indícios de que uma criança vá ter problemas de desenvolvimento simplesmente por crescer sem o pai ou a mãe - além disso, a presença de avôs, tios e dindos ajuda a suprir a ausência de uma figura masculina de referência. Alguns especialistas, contudo, questionam se a possibilidade de a mãe solteira por opção não ter um parceiro devido a uma eventual dificuldade de estabelecer vínculo consistiria em um problema na relação com a criança. Questão que a socióloga americana Rosanna Hertz, autora da pesquisa que resultou no livro Single by Chance, Mothers by Choice, descarta:
- Nenhuma mulher que entrevistei pareceu ter mais problemas de relacionamento do que qualquer outra. Também são tão preocupadas com o bem-estar de seus filhos como qualquer outra mãe.
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CAPA
Quem são os doadores
No Brasil, a doação de sêmen para bancos de esperma deve ser anônima e sem remuneração - essa determinação em voga foi reafirmada pelo Conselho Federal de Medicina com a resolução 1.957 de dezembro de 2010. O que atrai, então, voluntários que se dispõem a passar por uma triagem, comparecer um punhado de vezes a uma clínica e doar sua herança genética para desconhecidos?
Diretora de um banco privado de sêmen que é referência no país, com sede em São Paulo, Vera Beatriz Féher Brand aponta três grandes motivações. Muitos doadores, explica, são homens, que costumam doar sangue e fazer trabalho voluntário e que desejam ajudar outras pessoas a terem filhos. Vera também já deparou com candidatos que não tinham filhos e encaravam a doação como uma forma de disseminar sua herança genética. Outros buscam a possibilidade de fazer um check up gratuito: a rigorosa triagem dos doadores inclui testes para doenças como aids e hepatite.
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A idade em que é preciso decidir se é hora de seguir adiante sozinha
Livro de socióloga americana analisa a história de 65 mães solteiras
Em meados dos anos 1990, a mídia e as universidades americanas debatiam a questão das mães adolescentes e a reforma da Previdência Social. Diante de tantos dados e levantamentos, a pesquisadora Rosanna Hertz reparou em um fenômeno que crescia de forma lenta, mas consistente: mães solteiras de classe média, acima dos 30 anos, que haviam decidido se tornar mães, a despeito de não ter um parceiro. Professora de Sociologia e Estudos de Gênero na Wellesley College, em Massachusetts, Rosanna fez das mães solteiras por opção seu mote de pesquisa e entrevistou repetidas vezes 65 mulheres nesta situação. O resultado está no livro Single by Chance, Mothers by Choice (Solteiras por acaso, mães por escolha), lançado em 2006. Em entrevista por e-mail, Rosanna avalia as expectativas e os desafios de quem escolhe um caminho não usual para a maternidade.
Donna - Como a senhora descreve o perfil das mães solteiras por opção?
Rosanna Hertz - Falo sobre mulheres na casa dos 30 anos (a idade mais comum), que romperam com alguém e agora têm que decidir: "Tento encontrar um novo parceiro?". Isto é difícil porque tudo o que ela pensa é: "Essa pessoa conseguirá ser uma bom pai?". Não consegue ver essa pessoa apenas como um parceiro. E, se eles começam a namorar, levará outro punhado de anos antes que decidam seguir adiante e casem ou terminem. Mas ela está em uma idade em que tem de decidir se segue adiante sozinha.
Donna - Quais são os maiores desafios para quem toma essa decisão? Desistir do sonho tradicional da família com pai, mãe e filho?
Rosanna - Penso que elas nunca realmente desistem do sonho tradicional. Em vez disso, pensam que estão mudando a ordem de que primeiro vem o amor, então o casamento, e aí o bebê. Elas têm o bebê primeiro e, então, estão ainda abertas para encontrar um parceiro que irá amar não apenas elas como também a criança. A mãe e o filho vêm como um par. A maior diferença entre casadas e solteiras é que a solteira procura os amigos íntimos e a família e conta a eles que ela não consegue encontrar o parceiro certo, mas que quer ter um filho. Falam com seus chefes (uma professora que ensinava pré-adolescentes contou à direção da escola o que pretendia fazer porque não queria que seus alunos pensassem que ela havia feito algo errado ao engravidar, e então discutiram como contar a eles a novidade), outras falam com seus líderes religiosos. Quanto mais discutem a decisão de ter um filho e a inabilidade para encontrar um parceiro, mais envolvem todas as pessoas de seu círculo antes de tomar sua decisão. Uma mulher casada jamais faria isso: ficar grávida seria uma decisão privada.
Donna - Quais as consequências para quem escolhe um caminho não ortoxo para se tornar mãe?
Rosanna - As consequências, acho, são mais sobre como explicar a ausência de um pai físico para a criança. Ainda é preciso gametas femininos e masculinos para criar um bebê, então é preciso dar algumas explicações. Uma vez que os EUA não têm políticas contra doadores anônimos, estas crianças jamais conhecerão esse homem.
Donna - No dia a dia, qual os maiores desafios de uma mãe solteira?
Rosanna - Diria que é ter uma vida amososa. Quando, pouco antes de lançar o livro, voltei a falar com as mulheres que havia entrevistado, fiquei surpresa por elas me contarem que não haviam encontrado um parceiro. Não tinham tempo ou, talvez, não conseguiam conciliar tudo, de forma que suas próprias vidas e seus interesses eventualmente ficavam de lado. Namorar, algo que esperavam fazer, foi um dos problemas. Elas não iriam apresentar a seu filho cada pessoa com quem saíam - e frequentemente nem namoravam. Há histórias de mulheres que de fato encontraram um parceiro e casaram-se, mas são bem menos frequentes do que imaginei. Algumas disseram que enquanto os filhos viam demonstrações de amor entre outros membros da família, elas desejavam que eles também as vissem apaixonadas por alguém.
Donna - O que mais a surpreendeu nesse novo contato com as entrevistadas?
Rosanna - Fiquei surpresa em como as mulheres haviam completado suas famílias. Um pequeno grupo havia acrescido uma segunda criança. Eu me surpreendi porque, quando as havia entrevistado, elas tinham dito que não conseguiriam sustentar mais um filho, mesmo que quisessem: não é que sua situação financeira tenha mudado, e sim seu desejo de expandir uma família. Quanto a romance, menos da metade disse estar envolvida com alguém - contudo, 23% haviam aumentado a família por meio de casamento ou união civil. Aquelas que tinham filhos mais velhos, no Ensino Médio, esperavam pela ida deles para a faculdade - como todos os pais - para poder fazer algumas das coisas que, tendo família, é difícil. As que tinham filhos pequenos estavam imersas na vida em família e curtindo isso. Nenhuma estava quebrada financeiramente, embora algumas, deliberadamente, não aceitaram promoções ou diminuíram o ritmo em suas carreiras (provavelmente, não muito diferente do que fazem algumas mulheres casadas nos EUA).