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Estaria a nossa aptidão de conceber filhos naturalmente ameaçada? Postergação da maternidade, baixa na qualidade e na quantidade dos espermatozóides, aumento das malformações do aparelho reprodutor: vários sinais estão inquietando médicos e demógrafos.

A diminuição na qualidade do sêmen, aumento do número de casais com dificuldade para engravidar e maior busca por ajuda nas clínicas de reprodução fazem parte do novo cenário. Segundo Dr. Nilo Frantz, no Brasil, cerca de 16 milhões de pessoas - ou 8 milhões de casais - são acometidos pela infertilidade. Trata-se de uma significativa parcela da nossa população que sofre com a impossibilidade de gerar um filho.
A medicina considera como infértil um casal em idade reprodutiva que não engravida após pelo menos um ano de tentativas. Pesquisas estimam que 15% dos casais consultam um médico pela demora em ter um filho. Mas, qual seria exatamente o percentual da população que se encontraria dentro deste diagnóstico? Difícil afirmar com exatidão.
Para Frantz, antes que estatísticas oficiais venham a confirmar ou desmentir uma queda na fertilidade da raça humana, vários sinais já constatados têm chamado a atenção dos especialistas.
Os primeiros dados que começaram a inquietar os demógrafos não são de natureza médica, mas sim social: a idade de casamento e, sobretudo, da primeira gestação. A idade média da primeira gravidez passou dos 24 anos em 1970 para quase 30 atualmente. Paralelamente, a proporção de mulheres grávidas com mais de 35 anos não pára de crescer, sendo atualmente de 21,5% na França, contra 16,5% no final da década de 90.
Graças ao desenvolvimento das técnicas de reprodução, muito se descobriu sobre a fecundidade humana nos últimos 30 anos. "Através da doação de espermatozóides e óvulos, por exemplo, foi possível medir a capacidade reprodutiva, não mais de um casal, mas de um indivíduo", destaca Nilo Frantz. Resultado: a fecundidade feminina baixa após os 33-34 anos, e esta diminuição se acentua fortemente aos 40 anos devido ao envelhecimento natural dos óvulos. Ao contrário dos espermatozóides que são produzidos ao longo de toda a vida, os óvulos não são mais produzidos na mulher, após a saída do ventre da mãe. Assim, com o verificado adiamento na idade de ter um primeiro filho, as mulheres e, logicamente os casais, cada vez mais se deparam com dificuldades para engravidar.
Mas estariam os homens livres de preocupações? Também não. A inquietação se concentra basicamente na constatada queda da qualidade do esperma. Tudo começou em um estudo publicado em 1992 no British Medical Jornal por dois pesquisadores dinamarqueses, Skakkebaek e Elisabeth Carlsen. A análise realizada evidenciou uma queda regular da produção de espermatozóides por mililitro de sêmen depois da década de 30. De 113 milhões de espermatozóides por ml no fim dos anos 30 a média teria passado para 60 milhões no início dos anos 90, ou seja, uma queda de quase 50% em quase 50 anos! Existem várias explicações para este fenômeno.
Os cientistas rapidamente detectaram uma ligação entre a queda na quantidade de espermatozóides e certos produtos químicos, lista de componentes esta que aumenta a cada dia. Não são apenas pesticidas que causam danos. Produtos contidos em tintas, plásticos, embalagens, vernizes, roupas, produtos farmacêuticos, cosméticos, revestimentos internos de latas de conservas, entre outros, provaram sua nocividade, seja em pesquisas de análises toxicológicas com animais, seja em estudos epidemiológicos sobre humanos. Das 100.000 substâncias químicas artificiais existentes no nosso meio, pouco se sabe a respeito da influência de cada uma sobre nosso organismo e, particularmente, sobre o nosso sistema reprodutivo, afirma Rémy Slama, chefe da equipe de epidemiologia ambiental aplicada à fertilidade e à reprodução humana do instituto Albert-Bonniot, na França.
Outro fator preocupante, a elevação do nível de estresse da população e a sua repercussão sobre o nosso sistema reprodutivo. Os responsáveis por um banco de sêmen na cidade de Kobe, no Japão, tiveram uma interessante idéia. Convocaram os antigos doadores a realizarem uma nova coleta após o terrível terremoto ocorrido na região. Foi comprovada uma queda na mobilidade dos espermatozóides, mais importante nos homens que viviam próximo ao epicentro do abalo sísmico.  
Então, como vai a nossa fertilidade? Para o especialista em reprodução humana, Marcos Höher, em termos de número de filhos, graças aos métodos anticoncepcionais e a um melhor planejamento, a maioria dos casais está tendo uma família do tamanho desejado. "O que mudou foi o número médio de filhos por casal que vem diminuindo constantemente (diminuição da taxa de fecundidade) e o aumento de casais que optam por não terem filhos".
O médico destaca, que há outro fenômeno observado: "à medida que os casais postergam o momento de engravidar, acabam cada vez mais se deparando com dificuldades reprodutivas e necessitando de tratamento médico". Embora a ciência caminhe de forma rápida para equacionar todos os diferentes tipos de causas de infertilidade, existem motivos para preocupação. Diante deste novo cenário que se revela, mesmo o mais pessimista dos humanos não chegaria ao cúmulo de mencionar a palavra extinção. No entanto, cabe um alerta para que, no futuro, conceber um bebê continue sendo um natural ato de prazer e amor.

Fonte:
Revista Science & Vie (nº 249 - dezembro de 2009)
Nilo Frantz - especialista em reprodução humana
Membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA);
Membro da American Society for Reproductive Medicine (ASRM);
Membro da European Society for Human Reproduction & Embriology (ESHRE).


Marcos Höher - especialista em reprodução humana pela Red Latinoamericana de Reproducción Asistida (REDLARA).
Atualmente, realizando aperfeiçoamento no Serviço de Procréation Médicalement Assistée (PMA) do Hospital Antoine-Béclère (em Clamart, França).
 
   
 
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